Pura curiosidade!!!

 

“Muitas vezes são imensos os dons que, por influxos celestes, chovem naturalmente sobre alguns corpos humanos; outras vezes, de modo sobrenatural, num só corpo se aglomeram superabundantemente beleza, graça e virtude, de tal maneira que, para onde quer que ele se volte, todas as suas ações são tão divinas, que, deixando para trás todos os outros homens, se dão a conhecer como coisas (que de fato são) prodigalizadas por Deus, e não conquistadas pela arte humana. Isso foi visto pela Humanidade em Leonardo da Vinci, em quem a beleza do corpo, nunca suficientemente louvada, era acompanhada por uma graça mais que infinita em qualquer de suas ações; era tamanha e tal índole a sua virtude, que todas as dificuldades para as quais ele voltasse sua atenção se tornavam facilidades absolutas” (Vasari)

Quem me conhece sabe que tenho dois mestres, meus ídolos na História da Arte: Leonardo da Vinci e Vincent Van Gogh (ainda faço um texto unindo esses dois…). Há muitos anos, desde quando iniciei meu interesse por Arte, procuro ler coisas sobre ambos… e lembro que esse texto de Vasari me incomodou logo no primeiro contato, e desde então esse tema, genialidade, me intriga.

Inclusive há uma anotação no livro, ao lado do texto, feita por mim, com os seguintes dizeres “Que grande covardia Vasari!” – porque é uma grande covardia mesmo tirar de Leonardo o mérito pelo esforço na construção de seu intelecto, inflado por sua incansável busca pelo conhecimento, caucada em sua própria experiência.

Como disse no Post anterior, há alguns dias finalizei a leitura da Biografia de Da Vinci, escrita por Walter Isaacson, e NOSSA! Como agradeço o dia que me propus a fazê-lo.

O livro por si só já é uma maravilha, dinâmico, nada cansativo e com um tema que dispensa apresentações.

Mas além disso, o livro mexeu muito comigo, e acredito que mexeria com você também. Que Leonardo era um gênio, acho que todo mundo sabe, mas o livro, a meu ver, se propõe a desmistificar aquela velha noção do gênio “pré fabricado”, aquela descrita acima no texto de Vasari, cuja genialidade parece ser um presente divino, que corre no sangue apenas de alguns sortudos dotados de determinado DOM inato.

Dom e Gênio, são dois conceitos que, como disse anteriormente, me intrigam há anos, e muito provavelmente quem acompanhar este Blog, lerá alguns muitos textos com reflexões minhas sobre isso, pois realmente costumo dedicar um tempo ao estudo deles.

Leonardo era sim um gênio, não há como negar, e com certeza um dos mais incríveis polímatas que o mundo já conheceu (conceito que também muito me interessa, e que, acredito eu, também será explorado aqui nesse Blog em diversos momentos).

Mas meus amigos, Vasari estava muito errado. O que fazia de Leonardo um gênio não era nenhum neurônio diferenciado e super potente, enviado pelos deuses, ou material genético com informações privilegidas sobre as coisas do mundo, e que nenhum outro Ser Humano na Terra teve a sorte de possuir.

O que o diferencia de nós, reles mortais, é sua pré disposição e dedicação a uma das coisa mais naturais que acometem o Ser Humano desde a infância, mas que temos a terrível mania de ignorar conforme nos tornamos adultos: a CURIOSIDADE.

O que o diferencia de nós, é o seu não conformismo com o pré estabelecido, e sua sadia obsessão por aprender a partir da observação, questionamento e experimentação.

Todo gênio se destaca por sua capacidade em determinada área de conhecimento, e é certo que Leonardo explorou com enorme competência diversas áreas (engenharia, medicina, arquitetura, anatomia, pintura, escultura, matemática…) mas se nos aprofundarmos nesse ponto, a meu ver, desmistificamos essa ideia de inteligência superior, completa e inata nessas competências.

A verdade é que todo o conhecimento adquirido nessas diversas áreas ocorre sim de forma seletiva, com um único propósito, desenvolver sua capacidade de representação, ou seja, re-apresentação do mundo conforme ele o vê, o sente, e o experimenta.

O foco de sua busca, obsessão e genialidade, era encontrar a intersecção entre Ciência e Arte. É a busca e a curiosidade que geram o conhecimento, ele não vem pronto. Conhecimento é resultado da experiência.

Por mais que pareça estranho que Leonardo tivesse um foco quando se olha para seus cadernos repletos de estudos, que vão do fluxo sanguíneo do corpo humano a desenhos técnicos de máquinas que pudessem fazer o Homem voar, carruagens militares blindadas e assassinas, e projetos de arquitetura e engenharia que envolviam transposições de rios, o que norteia seus estudos e incentiva a sua criatividade, é seu anseio por sanar a sua curiosidade a partir de uma união entre Arte e Ciência.

Aí você me pergunta, mas o que leva Leonardo a ver e criar coisas que nós não conseguimos ver… não seria um Dom? Eu respondo sim, um dom que é comum a toda a humanidade, a capacidade de observar com curiosidade, mobilizado por um problema que o intriga e o leva a buscar soluções.

Leonardo, assim como outros gênios da humanidade pelos quais me interesso, e que também atiçam a minha curiosidade, sabia que o ponto forte do seu fazer artístico não estava no resultado final de sua Obra, mas em seu processo de construção, e isso minha gente é o fundamento desse modo de ver a genialidade como desenvolvimento pessoal e íntimo, inerente a qualquer Ser Humano que se pré disponha a buscá-la. O único e real diferencial desses seres “iluminados” é CONHECIMENTO PRÁTICO e o PROPÓSITO.

Leonardo faz Arte com propósito quando se utiliza da Ciência e da experimentação para criar Arte, e faz Ciência com propósito quando sua intenção clara é compreender o fazer artístico.

Aí você me pergunta, mas Leonardo era mais cientista ou mais artista? Taí uma resposta que eu não saberia dar… posso estar errada, mas arriscaria dizer que foi um misto bem homogênio dos dois. Para sua Arte se utilizava da ciência em busca de soluções formais e estéticas, e se utilizava da Arte para representação, experimentação e conclusão de suas teorias científicas.

Em ambos os casos não via no resultado final o seu apogeu, seu foco era o processo. Não à toa deixou incontáveis projetos inacabados, entre pinturas que nem sequer receberam tinta, e tratados que nunca se tornaram os livros vislumbrados.

“De forma similar, Leonardo considerava sua arte, sua engenharia e seus tratados como partes de um processo dinâmico, sempre abertos a melhorias através da incorporação de um novo insight. Ele atualizou São Jerônimo no deserto após trinta anos, quando seus experimentos anatômicos lhe ensinaram algumas coisas novas sobre os músculos do pescoço. Se tivesse vivido por mais dez anos, provavelmente teria continuado a dar retoques na Mona Lisa por todo esse tempo. Largar uma obra, declará-la finalizada, congelar sua evolução – Leonardo não gostava de fazer isso. Sempre havia algo a ser aprendido, uma nova lição da natureza capaz de aproximar uma pintura ainda mais da perfeição.” (Walter Isaacson)

Sua obra teve um cunho emocional e de interesse estritamente pessoal, era no processo que se encontrava a sua satisfação, finalizar um trabalho significaria pôr um ponto final em sua investigação e isso era de extrema dificuldade para uma mente curiosa e questionadora.

Por isso me incomoda tanto essa ideia do gênio como ser um dotado de uma inteligência sobrenatural. Sempre que me aprofundo no estudo do fazer artístico de gênios revolucionários, percebo que é sua incansável curiosidade a responsável pelo desenvolvimento de sua obra como genial. Somos nós que nos privamos do conhecimento amplo quando aceitamos conceitos prontos, com a preguiça de questioná-los.

Certa vez ouvi de um professor enquanto explicava as teorias de Deleuze, o seguinte raciocínio:

“Não é simplesmente ouvindo coisas que se faz música, não é olhando coisas que se faz pintura, não é percebendo e decupando o real em partes que se faz filosofia. Quando um compositor compõe uma música, esta comemora o seu surgimento. O próprio artista comemora o seu surgimento como artista ao pintar a sua obra.”

Achei isso tão incrível que anotei e nunca mais esqueci, porque vai de encontro exatamente com esse pensamento particular de que ninguém nasce alguma coisa, há uma construção nisso… a gente se torna o que é, naquilo que construímos, na experiência. São os processos que importam…

E Leonardo da Vinci foi, ao meu ver, um dos caras mais incríveis nessa abordagem…

Encerro este Post com uma citação de outro gênio conhecido por nós…

“Não tenho nenhum talento especial. Sou apenas apaixonadamente curioso” (Einstein) 

 

Com amor,

FeSendra

 

Ps.: As imagens e textos deste Blog são protegidos pelas Leis de Direitos Autorais, que proibe a cópia e uso por terceiros sem autorização prévia do autor. Respeitar o trabalho de um artista, é um ato de amor. Pratique! 😉

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